A Jornada Milagrosa
A presença francesa no Maranhão antecede 1600, estimulados pela façanhas do célebre pirata Riffaut, senhor de toda aquela costa. Em 1594, traz o pirata uma grande expedição em 3 navios: perde o maior e, após contratempos, vem deixar no Maranhão os restos da aventura. Teria sido esse o começo do estabelecimento definitivo. A expedição oficial de Ravardière é de 1612 mas, bem antes, por ordem de Henrique IV, estivera ele, Ravardière, no Maranhão, donde voltara tão animado que não poupou esforços para voltar após a morte do Rei.
A
colônia se firmara por expedições diferentes, das quais se destacam duas: a
de 1612, sob o comando de Ravardièr, e a que, em 1615, foi trazida por Du Pratz. Naquela, vieram uns 500 aventureiros; para esta última,
os depoimentos franceses dão 300 homens. Não há dúvida que a feitoria do
Maranhão é anterior à vinda definitiva de Ravardière, pois que, na sua
chegada, em 1612, ele foi recebido por uma frota de navios de Dieppe, tão bem
relacionada e provida, que lhe ofereceu uma ceia, onde não havia motivo para
desejar iguarias de França, dizem os cronistas. Os relatos dão conta ainda de
20mil flecheiros índios a serviço dos franceses, e que o estabelecimento
existia desde 1609.
Na
tropa francesa de São Luís, contavam-se, como oficiais, mais de vinte nomes de
alta aristocracia, entre outros um Conde, ou Joinville, diz um dos soldados
deles, e mais um fidalgo escocês. A povoação foi considerada cidade. Construíram-se
navios capazes de afrontar o alto-mar, e o comércio se desenvolveu a ponto de
provocar a vinda de navios de 300 toneladas. Além disso estavam os franceses
rodeados de tribos amigas, e que, deste modo, fechariam seus inimigos num círculo
de hostilidades. Era a esse inimigo que Jerônimo vinha afrontar, em condições
que assim se resumem: uma expedição insuficiente em tudo, menos no valor
humano dos que a compunham; falta de indicações esclarecedoras,
Essa foi a mais forte e mais formal tentativa dos franceses sobre o Brasil, e, por isso mesmo, foi a última. A França Equinocial fizera-se como o coroamento de uma posse comercial de mais de 50 anos, e batizara-se colônia em nome do Rei de França. Então, se tal empresa malogra, há motivos para que o francês desista definitivamente de fazer colônia em contestação com o Brasil; se é um brasileiro quem dá o golpe, e ganha a vitória decisiva, se o faz com recursos exclusivos do Brasil, temos, no caso, a prova da realidade da nova pátria em demonstração bem explícita.
As forças de Jerônimo eram em quantidade que pôde ser transportada em dois patachos, uma caravela e cinco barcaças, ao todo, 300 brancos e 200 índios, apenas. Composta por “gente da terra”, brasileiros, como seu comandante. Dessa, dirá depois... “os quatro capitães que hoje estão no Maranhão, todos juntos não chegam a 80 anos...”. Os elementos fornecidos à expedição foram tirados de uma colônia praticamente abandonada, como se verificou 10 anos depois, com o ataque dos holandeses. A essas forças, Ravardière pôde opor 400 soldados europeus, 4.000 índios, 7 navios e 46 canoas de guerra.
As ordens oficiais eram que a expedição não passasse da fundação de um forte, a 8 ou 10 léguas dos franceses, para inquieta-los, tão-somente. Mas, contrariando as ordens, o grande capitão fez seguir a expedição, até estabelece-la em contestação com os franceses. Na escolha da posição do forte, houve divergências, a que Jerônimo respondeu no definitivo mando de seleção: “Quem for amigo, não me aconselhe outra coisa!” E fez como entendia. Essa escolha foi decisiva: a ela se deve o êxito da batalha, e que pareceu milagre. “Determinou o capitão-mor fortifica-se num vale, entre duas alturas que lhe ficavam sobrancelhas...” – relata Dessa. E quando o inimigo, destemido e arrogante, veio ao ataque, Jerônimo pôde desenvolver, prontamente, a sua tática formidável: mete-lo entre dois fogos e dominá-lo completamente antes do segundo tiro.
Os franceses vieram atacar com a maior parte de suas forças: desceram 200 soldados europeus, e uns 2.000 índios, deixaram para reserva, embarcados, outros tantos brancos e muitos índios ainda. Jerônimo, opôs-lhes imediatamente a quase totalidade dos seus soldados: 4 companhias sem discriminação de índios; 2 seguem pela praia, para apanhar a retaguarda do inimigo; e este impávido, se prepara para o ataque da posição quando vê surgirem, inesperadamente, as outras 2 companhias – a própria vanguarda de Jerônimo, que as comanda em pessoa, ao lado do capitão Dessa. Alcançando antes de tentar qualquer fortificação de defesa, antes de gastar munições, o francês é abatido fulminantemente. Foi como se houvera caído numa cilada. O embate foi de soldados aguerridos mas, entre dois fogos, estava desfeito o inimigo. Jerônimo mesmo teve de dominar com sua espada o sr. De Pisieux. E os franceses foram levados à derrota, apesar de valentes, apesar de atacantes... já na desorientação geral da derrota que desnorteia, os franceses atiravam-se às ondas em busca de salvação. Finalmente, morreram 90 dos brancos inimigos, entre os quais, 7 grandes fidalgos; aprisionaram-se 19, e foram queimadas 46 canoas. São cifras dos próprios vencidos.