A
Fundação de Colônia do Sacramento
Os primeiros navegantes
que passaram pela embocadura do Rio da Prata, em 1514, foram os portugueses
Cristovão de Haro e D. Nuno Manoel. Ao que tudo indica, a expedição de Mastim
Afonso de Souza que, em 1530, deu inicio à ocupação do Brasil, destinava-se
ao Rio da Prata. A fundação da
Colonia do Sacramento.
A fundação da Colônia
do Sacramento, como projeto do Estado Português longamente estudado e
amadurecido, constituiu o desdobramento, ao nível oficial, dos esforços que os
luso-brasileiros, por meios das bandeiras, empreenderam, desde pelo menos 1636.
Em 1638, após o arrasamento das Missões do Tape por Antônio Raposo Tavares,
uma poderosa bandeira avançou pela margem direita do Rio Uruguai. Três anos
depois, em 1641, uma outra incursão bandeirante, composta por 400 paulistas e
cerca de 2000 Tupis comandada por Manoel Pire genro de Antônio Raposo Tavares,
desciam rumo a Mbororé, afluente do Rio Uruguai. Estas expedições, como, aliás,
quase todas as outras, respondia, grosso modo, aos interesses do comercio
luso-brasileiro e, dentro daquele contexto de acirramento das disputas
coloniais, particularmente com a Espanha, não podiam deixar de relacionarem-se
com os fatores que condicionaram a restauração da soberania nacional de
Lisboa. Nesta mesma época, houve um movimento para levar Buenos Aires, com o
apoio da população portuguesa lá residente, a romper com o Vice-Reino do Peru
e a aderir ao duque de Bragança, proclamado Rei de Portugal com o nome de D. João
IV, unindo-se ao Brasil, do qual, economicamente ela bastante dependia. A
necessidade de manter a conexão com Potosí e, reativando o comercio de
contrabando com a América espanhola, fomentar o fluxo de prata, que a economia
de Portugal. em crise, demandava, determinou, naturalmente, o desencadeamento da
tomada de posse, ipso facto, da riba setentrional do Rio da prata. Em 1680 sob
as ordens do Princípe-Regente, D. Pedro de Bragança ao Governador do Rio de
Janeiro Manoel Lobo, erguesse uma base militar, diante de Buenos Aires. Cerca de
300 soldados regulares do Exército português, em 26 de janeiro de 1680,
iniciaram a construção da fortaleza, que se chamaria Colônia do Sacramento,
que visava, assim, ao duplo objetivo de assegurar o domínio de urna das margens
do grande rio, fixando a Fronteira Natural (omitia praeclara) de suas possessões,
ao mesmo tempo, criar as condições para ulterior conquista de Buenos Aires.
Esta possibilidade era,
àquela época, tio real e previsível que, ao comunicar ao vice-Rei do Peru o
desembarque das tropas de Manoel Lobo, na outra margem do rio da Prata, o
Governador de Buenos Ames. D. Joseh de Garro, salientou que os habitantes de sua
cidade eram, “na maior parte, portugueses, filho, ou descendentes deles”e
que a “ardente paixão” pelos ocupantes dc Colônia do Sacramento,
manifestada com “pouca dissimulação”, fazia-o “desconfiar de que os dois
se dêem as mãos”. Perspectiva semelhante - a de que a população de Buenos
Aires, devido à forte presença portuguesa, aderisse à causa de Lisboa e
acompanhasse o Brasil.
A fundação da Colônia
do Sacramento não representava, assim, um ato isolado, mas uma iniciativa que,
no seu desenvolvimento, implicaria a invasão das províncias do Rio da Prata,
ou seja, a ocupação de toda a margem oriental e dos atuais territórios
argentinos de Missiones, entre Rios e Corrientes, ficando os portugueses a
controlar, em quase toda a sua extensão, a linha de comunicações entre Buenos
Aires e os centros mineiros do Alto Peru.
Segundo documento da época
revela, os portugueses ainda pretendiam implantar mais duas colônias, uma no
local onde os espanhóis ergueriam a cidade de Montevideo - o que já, em 1723,
chegaram a intentar - e outra no Cabo Negro, afim de estabelecer conexões
permanentes entre os povoados e de se apossarem das terras orientais, “com os
gados, lenhas e madeiras” ali encontrados. Era, como João Pandiá Calógeras
a qualificou, uma “política imperialista de agressão”, que desequilibrava
o sistema de segurança da área e ameaçava destruir um dos mais antigos núcleos
da colonização espanhola, a Cidade de Assunção, concretizando a velha aspiração
portuguesa de dominar o estuário do Rio da Prata.
A presença portuguesa no
Prata sofreu, desde o inicio, forte e violenta reação do governo de Boenos
Aires, que mobilizou 250 soldados e 3.000 índios das Missões jesuíticas, para
assaltar a Colônia do Sacramento, quase reduzida a escombros, poucos meses
depois de sua fundação. Uma guerra, que se prolongaria por mais de um século,
começou então, refletindo em suas ações políticas e militares, as oscilações
da conjuntura européia e os conflitos entre outras potências, como a
Inglaterra e a França, interessadas também na
região. E os portugueses, ao se empenharem, política e militarmente, para
defender a posição conquistada, não mais tiveram condições de evoluir sobre
Buenos Aires e os territórios a oeste do Rio da Prata.