A Conquista da Amazônia

a luta. f-elí,mciitc, para garuritirihc o exito, já havia as gerações de brasileiros afeitos ao clima, ao trato do gentio e ac gênero de guerra que se fazia. As provisões e os regimentos podem multiplicar os nomes e destacar sucessos; mas a história dos legítimos valores mostra-nos, como dos mais eficientes, os brasileiros Bento Maciel, Fragoso de Albuquerque, Souza Dessa... que abriram o caminho para que Pedro Teixeira se celebrizasse na façanha de haver percorrido o Amazonas... Hemos de encontrar toda essa gente, ao lado de Aranha e do mesmo Pedro Teixeira, conduzindo os feitos mais importantes e o melhor na obra de organização da conquista. Com esses homens, na gente que em tomo deles se agrupa, patenteiam-se as novas energias que dão valor ao Brasil, e nos explicam a extraordinária vitória de Portugal, decaído, nulo, desnacionalizado, em competência, ali, com as três nações mais poderosas do Ocidente que se achavam mais traquejadas na terra, ~ com manifesta superioridade: os franceses, pelas boas relações com o gentio; os holandeses porque, logo depois, puderam dispor dá excelente. posição de Pernambuco, e tinham isnlado, assim, øextremo Norte; os ingleses porque gozavam de grandes facilidades nos mares, conduzidos por homens como Drake - Raleigh, e iniciavam-se bem nos assuntos coloniais. O Brasil na expansão natural do seu desenvolvimento, pôde realizar milagre de arrancar o Amazonas a esses povos. Foi a touceira em rebentos fortes de vigor irresistível. Nenhuma semente de adventício teria prevalecido. O sucesso parece-nos mais espantoso, ainda, porque ali, no Pará, vemos pronunciarem-se, ostensivamente, todos os crimes de uma administração degradada~ corrupção, dissídios, assassínios, roubos... E foi o portugueses que, como iniciador da conquista, levou o germe de todas essas abominações

Caldeira Castelo Branco, de quem um mau destino fez o fundador do Pará, e que foi destacado para ali com toda a sua parcialidade, deu o tom da política administrativa da conquista; na subseqüente mis&ia política de Portugal não há mais reden­ção possível. Gaspar de Souza, o próprio que o enviou, compreendendo quanto mal havia nele, quisera substituí-lo pelo brasileiro Souza Dessa, “que tem qualidades e muito bem servi­do nessa conquista...”.

A sugestão foi desprezada em Lisboa, apesar de ter sido o mesmo Dessa quem dera as prime~ras notícias seguras sobre os holandeses naquele Norte. Logo depois, em 1618, o velho governador teve de intervir, tarde, a ver se remediava alguma coisa: ... Caldeira que se venha do Pará onde faz mil desconsertos... isto que digo a V. Majestade é a verdade como quem o conhece e sabe como faz...”. De fato: a estrangeiros, Caldeira não fez mal que valesse; mas, para o gentio, foi uma fórmula nova nas autoridades portuguesas~ em cruel bestialidade. Num só conflito, fez matar perto dc mil índios (pacajás), e não foi tanto o extermínio, como a ferocidade... Daí por diante, diminuirá a maldade para com o gentio, não as facções, e a corrupção, e os assassínioS, cujo exemplo é dado torpemente pelo seu cunhado. Tanto se repetem as facções, que os caboclos ponderam:

“...como achegarmo-nos e viver bem com gentes que, entre si, tanto brigam e disputam...”. Quando vem Fragoso de Albuquerque, tem de lutar fortemente para reduzir as tribos do Tocantins, amotinadas, desencadeadas.’ Foi um serviço, então, a violência com que ele reduziu esse gentio. E a mesma autoridade teve de prender Caldeira; mas, por sua vez, Fragoso é assassinado —envenenado por outra autoridade portuguesa, o abjeto Coelho de Carvalho que, da mesma forma, mandou assassinar Souza Dessa, Aranha e outros menores. O assassínio de Dessa causou horror, sem que fosse possível curar o mal, porque a colônia estava como que possuída por essa gente que se plantara com a semente do mal, Dessa tinha sido enviado a substituir Bento Maciel Parente, brasileiro de muito valor, mas contaminado dos costumes da conquista, sobretudo quanto às violências sobre o gentio. Conhecedor das necessidades da colônia, Dessa deixou um resumo do que se devia fazer, magnífico compêndio de açã., num governo profícuo. Sobreleva nas suas palavras o cuidado de ‘fazer paz universval com os índios, principalmente os tupinambás, gentio de muito préstimo,  que sempre serviram bem os portugueses na paz .e na guerra “. Foi quem levantou o forte de Gurupá. Não teve tempo, nem meios, para desenvolver o bem

em que pensava. Capistrano diz dele: “... a mais simpática figura da conquista nos primeiros tempos”.

Á obra de Maciel Parente é mais extensa. Será que esse tinha ânimo para adaptar-se à violência má do Pará daqueles tempos? É com Aranha que começa o ataque ~os holandeses, mas ninguém fez mais, contra os estrangeiros, do que Maciel. Foi quem deu conta de Parcel, no Gunipá: bateu-o, tomou-lhe as posições, e levou-o prisioneiro. Deu uma atividade que se estendeu por todo o Amazonas conhecido no tempo; prendeu, ou eliminou, mais de 300 invasores estrangeiros; incendiou­lhes navios, destruiu posições; percorreu as duas margens do grande rio até o Jenipapo-Pani e o Xingu-Parnafba; reconstruiu o forte do Presépio; foi, pelo Norte, à extrema das reivindica­ções, e plantou os respectivos marcos deposse; abriu um cami­nho, do Pará ~o Maranhão, a 50 léguas da costa, num percurso de 140 léguas, disputando a passagem, por toda parte, a um gentio hostil. Criado em Pernambuco, foi uma dessas indivi­dualidades bem características do Brasil primeiro, e exclusivas dele, no sentido de terem realizado a~ão difundida e, por con­seguinte, nacionalizadora. Foi bandeirante, no Sul, à procura de minas, preocupação que manteve por toda a sua vida; com­bateu como voluntário os piratas de Lericaster; depois, foi valoroso cabo-de-guerra contra o invasor holandês; lutou com o gentio no Maranhão; veio ao mesmo Maranhão cooperar na expulsão dos holandeses, em 1664. Mas a grande obra de Maciel Parente, mesmo no mal, se fez no Pará: tinha grande experiência das coisas do Brasil, e muito tino; em mais dc uma conjuntura do seu governo, mostrou-se verdadeiro organizador, spbretudo, porque era uma forte personalidade em toda ativida­de, Quando julgou chegado o momento de solicitar mercês, pôde alegar — trinta e seis anos de grandes trabalhos compa­ráveis aos de um Cortés... afirmava a sua empáfia.4 Podia dizê­lo, sem que isto lhe fosse honra maior, que Cortês não teve de arrancar territórios a ingleses nem holandeses senão a astecas inermes. Nos anos das lutas de conquistas, não houve, pelo VXt[d, ‘piCii~ COflIdSSC mais prí~e7~r~ de mais eficácia. O famoso Pedro Teixeira, feliz em tantos lances, teve de recuar com os seus 5.000 soldados índios e as centenas de portugueses, sem ter conseguido fazer com O’Brien o que Maciel fizera a Parcel.

E tanto valem as energias brasileiras, irradiantes para aque­le extremo Norte que, apesar do clima, antes de vinte e cinco anos, estava feito o Estado do Pará. Como, pelo Brasil anterior, a colônia se organizava sobre a terra arrancada ao estrangeiro. Intransigentemente repelidas destas costas, as nações piratas tiveram que afastar-se, até pa~sar ao outro hemisfério onde era o incontestável domínio de Castela; Não é que a Espanha considerasse aquele Amazonas-Orenoco, uma coisa de somemos valor. Tratava-se do E1dorado, que, então, tentava o grande Raleigh, como tentara Pizarro. Desde aqueles dias — de Orelana, que o Castelhano quer estabelecer-se no grande rio. Mais tarde, porque pareceu possível chegar, por ali, às minas do Peru, o governo de Madri considerou a navegação do Amazonas coisa essencial aos ~seus interesses. Quando Luiz Aranha fez a sua primeira explora­~Øo (levado por pilotos brasileiros), o intuito imediàto era achar o çaminho para o Potosí (Frei Vicente). Pois bem: foi Portugal, renovado nas gentes brasileiras, que decidiu e realizou a con-. quista do grande vale, que era tido, por ele mesmo, como domíniode Castela,5 a qual nada fez, quando era soberana no Brasil, para impedir que o Amazonas fosse anexado à colônia de Portugal, nem procurou garantir para si a posse do que, sendo seu, era, então, conquistado por súditos seus. Por isso mesmo, em 1617, jj~á o espanhol D. Fr. de Texada e Mendoza constatava pesaroso: “que los portugueses an poblado en el Rio de las Amazonas...”. Ainda depois da Restauração de Portugal, o jesuíta espanhol, Acufia, envia um memorial ao governo de Madri insistindo nas vantagens e necessidade, para a Espanha, de dominar nas águas do Amazonas, a fim de garantir-se contra inimigos (holandeses e ingleses), que ali se estabelecessem. Era tarde: o Brasil havia tomado a si o encargo de guardar a grande entrada para o coração do continente. É de notar que à Castela era relativamente fácil dominar aquelas costas em vista das suas posições no mar dos Caraíbas e no golfo do México