Defesa do Amazonas contra os holandeses.

 

Quando os batavos pretenderam ficar no Amazonas, eram as Províncias Unidas a nação mais poderosa do mundo. De certo momento em diante, senhores de Pernambuco, tinham os holandeses facilidades especiais, como não havia para os outros Assim se explica que eles se demorassem mais tempo naquele Norte do que os ingleses, e mantivessem por ali um comércio mais seguido do que o de qualquer outro povo. Diz, no tempo, o padre Antônio Vieira que, só para o transporte de peixe-boi, eles mandavam vinte navios, por ano, às costas do Pará. Antes mes­mo de Luiz Aranha, já se lhes fazia a guerra, que não mais ces­sou, sem que se distínguissem muito ingleses de flamengos. Ainda no governo de Caldeira Castelo Branco, há um ataque de -Bento Maciel, dirigido especialmente contra ôs fortes holande­ses de Gurupá, que foram tomados, apesar de defendidos por uma forte guarnição de 300 europeus. Foi essa primeira gran­de derrota deles, ali. Na mesma ocasião, destruíram-se engenhos de açúcar que lhes pertenciam, e demonstravam o intuito de fazerem colonização estável. Não há dúvida de que o governo da metrópole, ao intentar a conquista e defesa do Amazonas, pensa­va  sobretudo em precaver-se contra os batavos; as informações de Dessa (pág. 239) referem-se explicitaniente a eles. Há, de notáveis, ainda, os feitos de Luiz Aranha, orientado por pilotos brasileiros de Pernambuco e Maranhão: “... fiz pazes... grande número de gentio. E o persuadi que me acompanhasse com as suas canoas e armas e com ele rendi e tomei duas fortalezas holandesas que naquele grã rio tinham situadas, uma chamada Matutu. E outra de Nassau cativando-os a todos... assim botei uma nau a fundo”. Conta Frei Vicente do Salvador que, num desses .ataques de Luiz Aranha, Bento Macíel teve que vir em quatro canoas, “ao socorro da caravela em que Aranha atacava ao holandês; a gente de Bento Maçiel atacou a flamenga a machado, abriram-lhe o costado e a fizeram ir a pique, matando a ferro e fogo a tripulação de cento e vinte homens”.

Dois a três anos depois, Pedro Teixeíra (1625) ataca os fortes que os holan­deses mantinham no Xingu; bate-os e mata a maior parte das respectivas guarnições. Os poucos que escaparam, sob a conduta do tenente Bruine, vieram trazer a triste noticia ao Almirante Lucifer, que se achava no Oiapoque, aonde, como representante da Companhia batava das Índias Ocidentais, tratava de levantar um forte. Em 1628, o mesmo capitão toma e desmantela o forte que esse inimigo havia levantado na confluência do Maracapucu e o Amazonas. Os holandeses insistem e, em 1629, Bento Maciel os bate de novo, e lhes toma fortificações. Não desani­mam ainda: em 1639, mandam um navio de 20 canhões, em operações cb~tht Gurupá, navio que foi tomado por ~oaø Pcatira Cáceres. Gurupá era ponto vivamente procurado. Não conegui­ram tomá-lo, mas insistiram: só num ano — 1647, mandaram ali 8 navios fazer resgates. Durante todo esse tempo, oies, assim como os franceses, tiveram o apoio efetivo dos nhecngafbas, numeroso e valente gentio de Marajó. Note-se, agora: tudo isto se fazia sem os necessários auxílios da metrópole. Em 1624, o pernambucano Antônio Barreiros, capitão-mor do Maranhão, dizia ao rei: “... tive do governador de Pernambuco Matias de Albuquerque um aviso da parte de V. Maj. de inimigos e como me vejo sem socorro algum de pólvora, ou munições, para defe­sa desta tão desfavorecida conquista...”. Nem o pobre Matias podia mandar o que ele mesmo não tinha, que os sucessos de cinco anos depois bem demonstraram o abandono do próprio Pernambuco, a jóia do Brasil de então.

De toda essa freqüência de estrangeiros no Amazonas, resultou ficarem estabelecidos no Pará, com a colônia aí feita:

“50 ingleses, franceses e irlandeses, alguns deles casados e anti­gos moradores~Ldl~z Lucena, gente. muito prejudicial e. nociva... aliados com esse corsário ubrandcgos, e seu filho”. O corsário é o mesmo chamado, por outros, de Andregus e Raldregues, e que aparece como a alma dos tratos que o inva~or ainda mantém na terra; é aprisionado, assim como o filho, e desterrados para as terras do Itapicunt. Tais estranhos são nocivos porque “não con­vém tjue vão para a Holanda nem Europa, por serem muito práti­cos e grandes línguas de gentio...”.