DELMIRO GOUVEIA, O HOMEM QUE NÃO VENDEU O BRASIL.
“Mataram-me.
Tirem-me o paletó. Quem foi o cabra que me matou” Foram três tiros. Um deles
acertou o braço o outro, o coração. O Sangue explodiu em jorro, tingindo de
vermelho o terno imaculadamente branco, de Delmiro Gouveia. Não houve tempo
para o coronel esboçar a mínima reação. Não viu sequer o rosto do
assassino. Mergulhado numa poça de sangue, na varanda do chalé, estava ferido
de morte o pioneiro da industrialização do Nordeste. O homem que ousara
desafiar os ingleses da Machine Cottons, rompendo o monopólio da fabricação
de linhas com a marca Estrela, a “única genuinamente nacional”. E que fora
ainda mais além ao inventar, aquilo que viria a ser a Hidrelétrica de Paulo
Afonso.
Das mãos de um tal de Zé da
Pedra, comprou uma fazenda por 19 bois, a 24 quilometros da cachoeira, ao lado
da estrada de ferro de Paulo Afonso. Represou 2 rios, fez 2 açudes, e para se
tornar ainda mais preparado para enfrentar a seca, mandou vir água potável de
piranhas, Alagoas, pela estrada de ferro que, com seus 116 quilômetros, partia
de lá contornando cachoeiras até Petrolândia, em Pernambuco.
Aos poucos amigos que riam dos
seus planos na caatinga braba de uma localidade chamada Santana, ele dizia
confiante: “A água vai custar, mas a luz da cachoeira eu boto logo aqui”.
Em 1910, comprou a margem esquerda da Cachoeira de Paulo Afonso, e ninguém mais
duvidou das suas palavras. Logo a seguir veio a hidrelétrica e a fábrica de
linhas.
Em
26 de Janeiro de 1913, fundou a Vila da Pedra. O povo viu linhas transmissoras
trazerem uma novidade que nem a cosmopolita Recife podia exibir: luz elétrica.
E não era só: canais adutores traziam a matéria prima mais cobiçada no sertão:
água. “Anda aí um coronel diferente”, dizia o povo.
E em 6 de julho de 1914, o algodão do seridó, principal produto da região,
passou a ser transformado em linha na fábrica de Delmiro Gouveia. O Sertão
entrara na era da Revolução Industrial quase meio século antes das chaminés
se tornarem rotina na paisagem do nordeste. Mas Delmiro não estava satisfeito.
Dois anos depois, ele estava tirando fatias de mercado da Machine cottons não só
no Brasil como no Chile e na Argentina. Ameaçados pelo inesperado concorrente,
os ingleses não duvidaram ofereceram uma montanha de dinheiro pela fábrica.
Gouveia Passou a um novo contra-ataque: mandou comprar mais 2 mil teares!
A Vila da Pedra fervilhava. Parecia um outro mundo. Tinha
padaria, açougue, mercado e claro, luz e água encanada. O uso de pente,
sabonete, o banho diário eram obrigatórios. A noite os operários aprendiam a
ler e a escrever. Acreditava que a educação era o caminho mais curto para
acabar com o cangaço que ensangüentava o sertão. As filhas dos operários
aprendiam boas maneiras e arte culinária. Não faltavam cinema grátis, futebol
e retretas de bandas. Havia inclusive, uma previdência social, mantida a custa
de três tostões semanais. Para estimular o comércio, Delmiro rasgou mais de
500 quilômetros de estradas.
O historiador Olympio de Menezes, se surpreende de como
Delmiro “conseguiu não só o capital indispensável ao movimento, como também
os outros elementos, sabidas como eram precárias as condições da época e do
meio.”
Arno S. Pearse, autoridade mundial em fiação, que esteve
na vila da Pedra anotou: “Os operários são bem comportados, bem-vestidos e
limpos. Quando vão para o trabalho, estão mais bem trajados que o operário médio
europeu em dia de domingo”.
Nada parecia poder impedir a realização do grandioso
projeto de industrialização do nordeste levado adiante por Delmiro Gouveia
apesar das adversidades. O fornecimento de energia elétrica em grande escala
para os estados nordestinos era uma realidade cada vez mais próxima. E seus negócios
e influência cresciam em ritmo acelerado. Para se ter uma idéia, apenas no
decorrer do ano de 1915, o capital da agro fabril praticamente dobrou e, com
isso, no ano seguinte eram iniciados os trabalhos para a montagem de novas
turbinas de captação de energia das águas do São Francisco.
Mas se tudo parecia ir bem, uma pessoa não estava
satisfeita com o andamento dos negócios, o próprio Delmiro Gouveia. Ele tinha
pressa, muita pressa. Sabia que estava sob olhares nem um pouco amistosos. Já
corria o ano de 1917, aproximava-se o fim da I Guerra, e iniciava-se a batalha
entre o Coronel Delmiro Gouveia e os ingleses da machine Cottons. Pressionado
pelos ingleses, o empresário, que vivia se prevenindo contra emboscadas,
resolveu redobrar seus cuidados com a segurança. “Estou sendo ameaçado por
aqueles ingleses”, contou certa vez a um amigo. “Tenho receio que me
matem”, disse o coronel, sentindo o resfolegar da morte na nuca.
Morto Delmiro pelo punhal traiçoeiro, tratavam agora os
ingleses de por fim aos seus negócios. Manietaram logistas mediante vantagens
especiais “Dumping”, desde que se comprometessem a não vender as linhas
nacionais, ou seja, as fabricadas pela empresa que Delmiro criou. O presidente
Arthur Bernardes, somente no final do seu mandato, participou diretamente da
briga, reconhecendo que a Machine Cottons queria destruir a concorrência
nacional e resolveu taxar a importação da linha inglesa. Porém um ano depois
o canalha Washington Luís reduziu drasticamente os impostos de importação e a
Machine Cottons se reergueu mais forte ainda. Usando de Dumping, boicotes a Agro
Fabril não pode se manter, fechada e adiquirida pelos ingleses diz a imaginação
popular que seus maquinários foram jogados do alto da cachoeira de Paulo Afonso
e repousam no seu fundo. Mas, ficou na memória aquele Coronel diferente o
“Rei do Sertão”, o homem que não se vendeu, nem vendeu o Brasil.