ETHOS
BRASILIENSE
"E criou o 'homo colonialis' amante da solidão e
do deserto, rústico e anti-urbano, fraqueiro e dendrófilo que
evita a cidade e tem o gôsto do campo e da floresta".
Oliveira Viana
O grande historiador e crítico literário,
Sergio Buarque de Holanda. Em seu memorado livro Raízes do Brasil (1936),
definiu o brasileiro como "homem cordial"- aquele que age segundo o
coração, com afetividade extrovertida, não necessariamente sincera, avesso à
aceitação de normas impessoais. Segundo Sérgio, os brasileiros privilegiam
marcas pessoais e familiares e rejeitam relações formais, como as da vida pública,
procurando reduzi-las ao padrão pessoal e afetivo. Daí um mal político
duradouro: a tendência para tratar questões políticas como privadas.
Vale ressaltar que a cordialidade do homem
brasileiro se circunscreve dentro de um circulo hierárquico, dentro de uma célula
matre da Família Patriarcal Brasileira, arraigada sobre o chefe supremo, senhor
de tudo e de todos, o próprio braço do Estado Português em terras brasileiras
onde sua vontade e autoridade fazia-se sentir dentro dos seus domínios, seus
escravos e sua casa. Uma sociedade formada da integração assimilatória dos
demais setores do meio colonial postos em contado, mas sempre ordenado sob um égide
hierárquica onde os Senhores de Engenho e Latifundiários eram os próprios
Senhores Feudais transplantados e adaptados ao meio brasileiro.
Essa convivência com os gentios da terra e
escravos dentro das fazendas, criavam uma forte afinidade com essa gente em sua
volta, comumente tinham como Segunda mãe as escravas, que os amamentavam na
falta do leito materno, por conta muitas vezes do próprio falecimento de sua
verdadeira mãe, relegada nessa sociedade a mero objeto de procriação e
interesses patrimoniais. Encontraram sempre grande prazer em acamaradar-se com a
gente humilde, escravos e caboclos em torno das labaredas das fogueiras
embaladas pelos "causos", lendas e mitos em noites dos sertões
brasileiros.
De Joaquim Nabuco é a frase célebre de
que a todos os brasileiros criados em engenhos de cana; "O aroma que
rescende das grandes caldeiras de mel nos embriaga toda a vida, como a atmosfera
da infância".
Euclides da Cunha dizia que; "O caráter
de um povo se revela na guerra". Durante as Guerras Holandesas. Os
brasileiros deslumbraram ante a maior potência européia em época, o Ethos
Brasiliense. Os brasileiros eram compostos segundo descreve Van Goch de:
"tapuias, negros, mulatos, mamelucos, gente toda do Brasil, e também de
portugueses e italianos, possuem muita analogia com os naturais do país no
tocante à sua constituição, de maneira que atravessam e cruzam matas e
brejos, sobem os morros numerosos aqui, e descem tudo isso com rapidez e
agilidade verdadeiramente notáveis." Pois que em 16 de abril de 1648, no
cimo dos Montes dos Guararapes deu-se a batalha decisiva, os brasileiros em
menor número, destroçaram o exército batavo, este melhor armado e com um
contingente superior.

Batalha dos Guararapes
Lopes Santiago - uma possível testemunha
ocular dos acontecimentos - diz bem dos danos causados aos flamengos: "
(...) retirando-se por eles abaixo, seguindo-se os nossos com as valorosas
espadas com talhos e estouradas, cortando pernas, braços, cabeças, uns
matando, outros ferindo encarniçadamente, ficando pelo campo corpos sem braços,
troncos sem cabeças (...) com a espada na mão por meio dos esquadrões, rompe
os inimigos apinhados, dando golpes a uns e a outros morte , mostrando a espada
tinta de sangue, esquecendo-se de qualquer perigo". "Aqui estavam uns
clamando e implorando com humildes rogos misericórdia aos vencedores, ali se
ouvia a turba multa dos que pediam bom quartel, em outra parte, em seu idioma
mal articulado com as ânsias da morte, queixavam-se de sua adversa fortuna, e
muitos dentro os mortos, fingindo-se que o estavam, queriam ainda dilatar a
breve vida. Finalmente, infinitos precipitados, bem desejavam naquele apertado
passo, outras asas de Ícaro e Dédalo, para voarem e não se fazerem pedaços
naqueles precipícios e penhasco, correndo copiosa inundação de sangue por
todos aqueles montes que era um espetáculo admirável". Repousa aí, sobre
o Espírito dos Guararapes o nascimento instaurador da Nação Brasileira. A
maior esquadra do mundo de então e os mais experimentados generais, contratados
pela Companhia das Índias Ocidentais, não puderam vencer os Brancos, negros e
índios que, juntos, e afinal auxiliados pelo rei de Portugal, não só
expulsaram os invasores, como demonstraram que surgia uma nacionalidade.
Ao tempo em que ao Nordeste do Brasil, os
brasileiros travavam encarniçada resistência contra os invasores holandeses.
No sul, além da Serra do Mar, no planalto de Piratininga. Bandeirantes
espalhavam o terror entre os povos do interior do continente e expandiam as
fronteiras da américa portuguesa destruindo e conquistando antigos núcleos de
colonização espanhola, levados pela crença do "El dourado", Como as
lendas da serra Esplandecente e da lagoa dourada, existente aquém da linha das
Tordesilhas, oculto em sertão bruto, um novo potosí, conforme expõe Sergio
Buarque de Holanda, em seu ensaio, Visão do Paraíso. O apresamento do índio
era a norma geral seguida por esses bandos armados. Os índios resistiam e
entravam em luta com o conquistador. Provaram muitas vezes a sua valentia,
quando não a sua ferocidade. O padre Anchieta se refere com assombro aos
tupiniquins, chamando-os "brava e carniceira nação, cujas queixadas ainda
estão cheias de carne dos portugueses".

Bandeirantes
Os Bandeirantes, quase todos eles eram índios
ou mestiços e falavam a "língua geral", um dialeto Tupi. Segundo o
historiador Sérgio B. de Holanda, 83% da população paulista no século XVII
era indígena. Chamados pelos jesuítas de mamelucos de piratininga - filhos de
cunhãs com portugueses, nascidos no planalto de São Paulo. Seus equipamentos
se reduz ao gibão de couro acolchoado de algodão, arcabuzes e mosquetes,
foices e facões, como o arco e flecha. Andavam quase sempre descalços e,
quando montados, ostentavam nos pés nus grandes esporas. Em suas entradas nos
sertões, não levavam provisões. Apenas cabaças de sal, pratos de estanho,
cuias, guampas, bruacas e a indispensável rede de dormir. Quando lhes faltavam
provimentos, comiam carne repugnante: de cobras, sapos e lagartos. E se lhes
apertava a sede, à falta de água, bebiam sangue dos animais, mascavam folhas,
roíam raízes. A tal ponto se identificaram com a terra "inóspita e
grande" que um documento da época assim os define: "Paulistas
embrenhados são mais destros que os mesmos bichos", numa disposição que
intrigava até os inimigos. O padre jesuíta espanhol Antonio Ruiz de Montoya
(1585-1652), por exemplo, escreveu que os paulistas, a pé e descalços, andavam
mais de dois mil quilômetros por vales e montes "como se passeassem nas
ruas de Madri". A coragem deles também era extraordinária.
Bandeirante se tornou sinônimo do homem
paulista, adquirindo um significado heróico, juntando no mesmo vocábulo o
arrojo e a tenacidade com que se empenharam na conquista do território, na
descoberta do ouro, no povoamento de Minas Gerais que deu origem a um tipo tão
característico da paisagem interiorana do Brasil, o caipira, um homem
excessivamente cordial, desconfiado e apegado a terra. O mesmo elemento que fez
surgir no Mato Grosso, o pantaneiro, e em Goiás o caipira que virou boiadeiro.
Também foram as entradas bandeirantes que se empenharam na ocupação do Paraná,
Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Como menciona Oliveto Sanmartim: "As
invasões sucediam-se numa vertigem assustadora, (...) ondas bandeirantes
solapavam as terras do sul, sem outro sentimento a não ser o do interesse
comercial, que degenerava para o ângulo de represália e sentido de
esmagamento, diante da resistência encontrada". A efeito essas incursões
se desdobraram no arrasamento por completo das reduções jesuíticas onde havia
grande contingente de Guaranis já predispostos ao trabalho na lavoura bem como
se assemelhavam bastante aos bandeirantes por falarem língua muito similar, o
que facilitou o estabelecimento bandeirante nos territórios conquistados, tal
qual foi com Guaíra e Tape.

Gaúcho
O amancebamento de cunhãs guaranis com os
luso-brasileiros ali estabelecidos deu origem ao surgimento de um tipo característico
dos pampas, o gaúcho. A quem tão bem soube descrever Euclides da Cunha:
"O gaúcho, o peleador valente, é, certo, inimitável, numa carga
guerreira; precipitando-se, ao ressoar estrídulo dos clarins vibrantes, pelos
pampas, com o conto da lança enristada, firme no estribo; atufando-se
loucamente nos entreveros; desaparecendo, com um grito triunfal, na voragem do
combate, onde, espadanam cintilações de espadas; transmutando o cavalo em projétil
e varando quadrados e levando de rojo o adversário no rompão das ferraduras ou
tombando, prestes na luta, em que entra com despreocupação soberana pela
vida.". Se ocupando da atividade pastoril onde sua atividade básica era o
comércio de mulas aos tropeiros que iam do Rio Grande a Minas ensejada pela
descoberta do ouro pelos bandeirantes. Essa matriz guarani é que forjava a
proto-etnia gaúcha, que mutiplicando-se vegetativamente e "guaranizando"
outros contingentes, povo-ou a campanha e veio a ser depois, a matriz étnica básica
das populações sulinas.
A ocupação do interior dos sertões semi-áridos
fez surgir o sertanejo, habitante d'uma terra inóspita ressequida pelo sol,
soberano nas caatingas do interior do Brasil. A quem tão bem soube analisar
Euclides da Cunha : "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o
raquitismo exaustivo dos mestiços do litoral. (...) A sua aparência,
entretanto, ao primeiro lance de vista revela o contrário. Falta-lhe a plástica
impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas.
É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a
fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e
sinuoso, apresenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura
normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de
humildade deprimente [...]. Entretanto, toda essa aparência de cansaço ilude.
Naquela organização combalida, operam-se, e, segundos, transmutações
completas. Basta o aparecimento de qualquer incidente exigindo-lhe o desencadear
das energias adormecidas. O homem transfigura-se. Empertiga-se, [...] e da
figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta inesperadamente o aspecto dominador
de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força e
agilidade extraordinárias."
O sertanejo arcaico caracteriza-se por sua
religiosidade católica singela tendente ao messianismo fanático, por seu
carrancismo de hábitos, por seu laconismo e rusticidade, por sua predisposição
ao sacrifício e à violência. E, ainda, pelas qualidades morais características
das formações pastoris do mundo inteiro, como o culto a honra pessoal, o brio
e a fidelidade a suas chefaturas, propiciando o surgimento do jagunço.
O jagunço é o homem que, sem abandonar o
seu roçado ou o seu curral de bois de cria, participa de lutas armadas ao lado
de amigos ricos ou pobres. Observadores apressados costumam ver o jagunço como
um tipo à parte, na sociedade do vale, trajando-se diferente dos outros,
vivendo uma vida a margem das outras vidas. Mas não há engano maior, pois o
jagunço é um homem como os outros. O seu chapéu de couro é o mesmo que o
vaqueiro usa. O mesmo homem que campeia, perseguindo os bois nas vaquejadas,
quando necessário, despe o gibão e o jaleco, tira as perneiras e solta o gado,
troca a vara-de-ferrão por um fuzil, quebra o chapéu de couro na frente e vai
brigar como um guerreiro antigo. Não é preciso tirar carta de valente para ser
jagunço. Jagunço todo mundo é, pois no sertão os covardes nascem mortos.
Foi em Canudos que o sertanejo mostrou todo
seu valor e coragem, não se deixando dobrar. Canudos resistiu até o último
homem. Quando em seu último e derradeiro ato um punhado de homens com uma criança
tolhidos em uma vala não se entregaram a frente de um exército de cinco mil
homens ruidosos e armados com farta munição. A exemplo do contestado onde
Caboclos do sertão de Santa Catarina se elevaram contra a política excludente
lhes impostas. Foram massacrados pelo emprego de aviões usados agora como armas
de guerra. Tudo isso garantido pela pronta ação repressora de um corpo
nacional das forças armadas que se prestava, ontem, ao papel de perseguidor de
escravos, como capitães do mato, e se presta, hoje, à função de pau-mandado
de uma minoria infecunda contra todos os brasileiros.
Durante o ciclo da borracha milhares de
sertanejos principalmente 'cearenses' migraram para a Amazônia, atraídos pela
riqueza espetacular que a borracha proporcionava, gente de todos os cantos do
Brasil... Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Os novos
bandeirantes invadiram involuntariamente terras pretendidas pelo Peru e Bolívia.
Foram chocar-se violenta e sangrentamente com os bolivianos e peruanos que ,também
em busca de borracha se aventuravam na região. Que culminou na guerra que os
acreanos sustentaram contra a Bolívia e o Peru. Foi uma das páginas mais
brilhantes da ocupação do espaço brasileiro. Dentro agora de um meio de
florestas densas, quentes e úmidas entrelaçadas por igarapés e rios
caudalosos o homem brasileiro mostrou sua incrível adaptação ao novo meio,
ensejando o caboclo amazonense, onde, do ponto de vista psicológico, por isso,
o amazonense de raiz indígena distingue-se ainda hoje pela brandura e
cordialidade. 'Caboclo', nome por que gosta de ser chamado, é de estatura
baixa, de cor macilenta. Não tem arroubos nem manifesta ambições materiais. Não
exterioriza facilmente suas impressões. Ao contrário, é de uma sobriedade
impressionante. Excessivamente desconfiado, tem sempre em mente que os que dele
se aproximam trazem a intenção de enganá-lo. É imprevidente e supersticioso.
Sobre o meio físico possui um domínio absoluto: não teme a floresta nem as águas
da bacia hidrográfica; tampouco a fauna agressiva. Desde criança, habituou-se
à rudeza do ambiente. Rema com agilidade, percorre a mata sem hesitações.
Possui uma habilidade infinita para os serviços da vida primária; pesca, caça,
coleta. Es o perfil característico do homem brasileiro que povoou toda a imensa
bacia hidrográfica amazônica, conservando a mesma essência tão familiar
observada nos demais brasileiros dos outros cantos do Brasil.
Ao final do século XIX e início do século
XX, verificou-se a ocorrência de correntes migratórias advindas da Europa, em
geral brancos pobres que abandonaram seus países por conta de guerras e pela
política de enxugamento populacional posta em prática por alguns países
europeus.