Mapa Genético do Brasileiro
Ao analisar uma amostra da população brasileira que
se autoconsidera branca, os pesquisadores encontraram sete haplogrupos
diferentes do cromossomo Y (veja tabela 1); eles mostram que a ascendência
paterna dos brasileiros que se consideram brancos é formada principalmente por
europeus. Um olhar mais atento à tabela conta uma longa história genética.
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Em relação ao cromossomo Y, o haplogrupo 1, típico
das populações européias, aparece em 57% da população branca brasileira. Os
portugueses trouxeram também, em menor porcentagem (14%), o haplótipo 21, das
populações do norte da África e orla do Mediterrâneo. É que durante a Idade
Média, os mouros, vindos do norte da África invadiram a península Ibérica e
levaram o haplogrupo 21 incorporado, a partir de então, ao genoma da população
portuguesa. Esta seria a explicação para a presença deste haplogrupo entre os
brancos brasileiros, já que praticamente não houve importação de escravos do
norte africano para o Brasil.
O haplogrupo 9, das populações mediterrâneas,
aparece em 8% da população branca brasileira (e em 6% da população
portuguesa). É assim provável que os portugueses tenham sido os principais
fornecedores desse haplogrupo entre os brasileiros; isso se deveria à vinda de
"cristãos novos" para o Brasil no século 16 (quando os judeus foram
forçados a se converter ao cristianismo, ou expulsos de Portugal pela Inquisição),
pois as maiores taxas deste haplogrupo são encontradas entre judeus e
libaneses.
Os imigrantes europeus que chegaram ao Brasil depois
da primeira metade do século 19 teriam aumentado a freqüência deste
haplogrupo, o 9, e do 21, originários do Mediterrâneo, e os imigrantes espanhóis
teriam trazido para o Brasil o haplogrupo 22.
Em relação ao haplogrupo 2, segundo os pesquisadores
da UFMG, é mais difícil entender sua distribuição entre as populações pois
ainda não há estudos conclusivos sobre sua origem e ele é encontrado em todas
as populações. Tudo leva a crer que foi trazido por portugueses, pelos
holandeses que invadiram o Nordeste, e pelos alemães cuja imigração
concentrou-se no Sul do país. Essa explicação baseia-se nas altas
porcentagens encontradas para este haplogrupo no Nordeste (19%) e no Sul (28%)
do país.
Mais de 90% das linhagens paternas de brasileiros
brancos descendem de europeus, e somente 2% descendem de africanos.
Portanto, para nós brasileiros, os haplogrupos 21, 1,
9, 22 e 2 podem ser considerados como sendo originários da colonização
portuguesa e da imigração européia. Somando a porcentagem da população em
que cada um deles aparece no Brasil, verificamos que a linhagem paterna de mais
de 90% da população branca brasileira é de origem européia. Apenas 2% da
população branca apresenta o haplogrupo 8, originário da África subsaariana,
e 1% o haplogrupo 20, originário do Japão e Coréia.
Os pesquisadores da UFMG chamam ainda a atenção para
a baixa presença do haplogrupo originário na África subsaariana, de onde
vieram a maior parte dos escravos brasileiros e que poderia estar presente na
linhagem paterna da população branca. Chamam, também, a atenção para a ausência
do haplogrupo 18, que marcaria a presença indígena na linhagem paterna dos
brancos brasileiros.
Foi a análise desses marcadores que levou Sérgio
Pena e sua equipe à conclusão que mais de 90% das linhagens paternas de
brasileiros brancos descendem de europeus, e somente, 2% descendem de africanos.
Nas linhagens maternas os resultados encontrados foram
diferentes. A análise do DNA mitocondrial, que é o marcador genético destas
linhagens, é complexa pois ele é mais diversificado que o cromossomo Y. Os
pesquisadores encontraram 171 haplótipos diferentes nos 247 indivíduos
estudados. Apesar da diversidade, foi possível distribuí-los em três grupos
distintos de linhagens: africanas, ameríndias e européias (veja tabela 2),
cuja distribuição é relativamente uniforme na população branca brasileira
-- 33% de linhagens ameríndias, 28% de linhagens africanas e 39% de linhagens
européias --, bem diferente daquela encontrada para o cromossomo Y.
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A distribuição dos haplogrupos mitocondriais por
região no Brasil também está relacionada à história da colonização, dizem
os pesquisadores. No Sul, chama a atenção a maioria (66%) dos haplótipos
europeus, refletindo a imigração européia dos séculos 19 e 20, de um lado, e
a minoria das matrilinhagens africanas associada à menor utilização de mão-de-obra
escrava na região.
No Norte, 54% das matrilinhagens são ameríndias e
refletem a maior presença indígena em relação aos africanos entre os
trabalhadores forçados da região. No Nordeste, predominam matrilinhagens
africanas (44%), e mesmo no Sudeste, onde concentrou-se a imigração européia,
e que portanto é visto como o Brasil branco, há uniformidade da distribuição
das linhagens.
Os dados do estudo dos cientistas da UFMG reafirmam a
inexistência de raças humanas e expõem a diversidade genética da população
brasileira. Somos descendentes de africanos, índios e europeus. E, olhando mais
de perto, veremos que os europeus nos deixaram as marcas das invasões e imigrações
daquele continente por celtas, fenícios, romanos, suevos, visigodos, judeus, árabes
e bérberes. A nossa ascendência será cada vez mais rica à medida em que os
estudos filogeográficos se desenvolverem e conseguirem determinar mais
detalhadamente a origem histórica dos marcadores genéticos.
A natureza tri-híbrida da população brasileira, a
partir de ameríndios, africanos e europeus, já havia sido afirmada por vários
autores como Artur Ramos, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de
Holanda e Darcy Ribeiro, entre tantos outros. Como dizem os pesquisadores
mineiros, "os dados que obtivemos dão respaldo científico a essa noção".
A partir da presença de 33% de matrilinhagens ameríndias,
eles calculam que cerca de 45 milhões de brasileiros tem DNA mitocondrial ameríndio
ÿ descendem, portanto, dos primeiros habitantes desta terra. "Em outras
palavras", dizem eles, "embora desde 1500 o número de nativos no
Brasil tenha se reduzido a 10% do original (cerca de 3,5 milhões para 325 mil),
o número de pessoas com DNA mitocondrial aumentou mais de 10 vezes". É
uma herança expressiva e muito maior do que a suposta, e que relativiza a idéia
de que quase a totalidade da população originária teria sido simplesmente
eliminada, como geralmente se diz. Ela nos leva a entender melhor a participação,
muito subestimada, dos indígenas na formação do povo brasileiro. Os
colonizadores de fato massacraram o povo autóctene da terra que invadiam, mas
uma fração relevante deste povo foi assimilada e incorporada ao novo povo que
surgia, o povo brasileiro.
Que branco é esse?
Outra revelação importante é que "a contribuição
européia deu-se basicamente através de homens, e a ameríndia e africana veio
principalmente através de mulheres. A presença de 60% de matrilinhagens ameríndias
e africanas em brasileiros brancos é inesperadamente alta e, por isso, tem
grande relevância social", dizem os pesquisadores. Estes dados já haviam
sido vislumbrados por antropólogos brasileiros que explicaram a formação do
povo brasileiro.
Darcy Ribeiro foi um deles. Em O Povo Brasileiro ele dá
as pistas de nossa história genética. Desde o começo da colonização, vieram
da Europa principalmente homens, e raríssimas mulheres. E os colonos, desde o
início, acasalavam-se com as índias, formando alguns focos de mamelucos,
resultado da miscigenação entre índios e portugueses, franceses ou espanhóis.
No final do século 16, o padre José de Anchieta avaliava a população do
Brasil em 57 mil almas, sendo 25 mil brancos da terra (principalmente mestiços
de portugueses com índias), 18 mil índios e 14 mil negros. "Anchieta, porém
só se referia à população incorporada ao empreendimento colonial que
ocuparia, naquela época, não mais de 15 mil quilômetros quadrados", diz
Darcy Ribeiro. Quase a metade da população era branca, mas branca da terra,
isto é, mamelucos. E, no conjunto da população, o número de brancos europeus
era ínfimo.
A partir daí o componente negro-africano aumentou
cada vez mais, pela intensificação do tráfico africano e do uso de escravos
na colônia, trazendo muito mais homens do que mulheres -ÿ de tal forma que, em
alguns locais, a população negra era constituída quase que exclusivamente por
homens.
Surgimos, efetivamente, do cruzamento de uns poucos
brancos com multidões de mulheres índias e negras
"Numa sociedade com carência principalmente de
mulheres, os índios e negros aliciados como escravos raramente conseguem uma
companheira", inutilizando-se como povoadores. Os descendentes mestiços do
cruzamento entre europeus, índias e negras foram aqueles que formaram o nosso
povo e constituíram a identidade brasileira até praticamente 1850. Dados
citados por Darcy Ribeiro mostram que de 1500 até 1850 vieram para o Brasil
apenas 500 mil europeus. Um número ínfimo se considerarmos que até esta data
foram introduzidos, como escravos, entre 4 a 6 milhões de negros, e que a
população indígena original teria sido de 5 milhões. E ele conclui,
antecipando-se aos resultados da pesquisa genética realizada em Minas Gerais:
"Nós surgimos, efetivamente, do cruzamento de uns poucos brancos com
multidões de mulheres índias e negras".