Mapa Genético do Brasileiro

 

Ao analisar uma amostra da população brasileira que se autoconsidera branca, os pesquisadores encontraram sete haplogrupos diferentes do cromossomo Y (veja tabela 1); eles mostram que a ascendência paterna dos brasileiros que se consideram brancos é formada principalmente por europeus. Um olhar mais atento à tabela conta uma longa história genética.

Tabela 1
Origem dos cromossomos Y de brasileiros
brancos e de portugueses (em %)
O haplogrupo 2 ‚ o único sem origem geográfica definida

Haplogrupo

Origem gegráfica

Norte

Nordeste

Sudeste

Sul

Brasil

Portugal

Haplogrupo 8

África subsaariana

0

4

4

0

2

1

Haplogrupo 21

Af. Do Norte e Mediter.

13

8

16

16

14

12

Haplogrupo 1

Europa

56

67

56

52

57

66

Haplogrupo 9

Mediterrâneo

14

2

10

4

8

6

Haplogrupo 22

Bascos e Catalães

0

0

2

0

1

1

Haplogrupo 2

Europa, Ásia ou África (?)

14

19

12

28

19

13

Haplogrupo18

Ameríndios

0

0

0

0

0

0

Haplogrupo 20

Japoneses e Coreanos

2

0

0

0

1

0

Fonte: Ciência Hoje, abril de 2000, p. 21

Em relação ao cromossomo Y, o haplogrupo 1, típico das populações européias, aparece em 57% da população branca brasileira. Os portugueses trouxeram também, em menor porcentagem (14%), o haplótipo 21, das populações do norte da África e orla do Mediterrâneo. É que durante a Idade Média, os mouros, vindos do norte da África invadiram a península Ibérica e levaram o haplogrupo 21 incorporado, a partir de então, ao genoma da população portuguesa. Esta seria a explicação para a presença deste haplogrupo entre os brancos brasileiros, já que praticamente não houve importação de escravos do norte africano para o Brasil.

O haplogrupo 9, das populações mediterrâneas, aparece em 8% da população branca brasileira (e em 6% da população portuguesa). É assim provável que os portugueses tenham sido os principais fornecedores desse haplogrupo entre os brasileiros; isso se deveria à vinda de "cristãos novos" para o Brasil no século 16 (quando os judeus foram forçados a se converter ao cristianismo, ou expulsos de Portugal pela Inquisição), pois as maiores taxas deste haplogrupo são encontradas entre judeus e libaneses.

Os imigrantes europeus que chegaram ao Brasil depois da primeira metade do século 19 teriam aumentado a freqüência deste haplogrupo, o 9, e do 21, originários do Mediterrâneo, e os imigrantes espanhóis teriam trazido para o Brasil o haplogrupo 22.

Em relação ao haplogrupo 2, segundo os pesquisadores da UFMG, é mais difícil entender sua distribuição entre as populações pois ainda não há estudos conclusivos sobre sua origem e ele é encontrado em todas as populações. Tudo leva a crer que foi trazido por portugueses, pelos holandeses que invadiram o Nordeste, e pelos alemães cuja imigração concentrou-se no Sul do país. Essa explicação baseia-se nas altas porcentagens encontradas para este haplogrupo no Nordeste (19%) e no Sul (28%) do país.

Mais de 90% das linhagens paternas de brasileiros brancos descendem de europeus, e somente 2% descendem de africanos.

Portanto, para nós brasileiros, os haplogrupos 21, 1, 9, 22 e 2 podem ser considerados como sendo originários da colonização portuguesa e da imigração européia. Somando a porcentagem da população em que cada um deles aparece no Brasil, verificamos que a linhagem paterna de mais de 90% da população branca brasileira é de origem européia. Apenas 2% da população branca apresenta o haplogrupo 8, originário da África subsaariana, e 1% o haplogrupo 20, originário do Japão e Coréia.

Os pesquisadores da UFMG chamam ainda a atenção para a baixa presença do haplogrupo originário na África subsaariana, de onde vieram a maior parte dos escravos brasileiros e que poderia estar presente na linhagem paterna da população branca. Chamam, também, a atenção para a ausência do haplogrupo 18, que marcaria a presença indígena na linhagem paterna dos brancos brasileiros.

Foi a análise desses marcadores que levou Sérgio Pena e sua equipe à conclusão que mais de 90% das linhagens paternas de brasileiros brancos descendem de europeus, e somente, 2% descendem de africanos.

Nas linhagens maternas os resultados encontrados foram diferentes. A análise do DNA mitocondrial, que é o marcador genético destas linhagens, é complexa pois ele é mais diversificado que o cromossomo Y. Os pesquisadores encontraram 171 haplótipos diferentes nos 247 indivíduos estudados. Apesar da diversidade, foi possível distribuí-los em três grupos distintos de linhagens: africanas, ameríndias e européias (veja tabela 2), cuja distribuição é relativamente uniforme na população branca brasileira -- 33% de linhagens ameríndias, 28% de linhagens africanas e 39% de linhagens européias --, bem diferente daquela encontrada para o cromossomo Y.

Tabela 2
Origens dos DNAs mitocondriais
identificados em brasileiros brancos
(em %)

Haplogrupo

Origem geográfica

Norte

Nordeste

Sudeste

Sul

Brasil

L1a

África

0

8

2

2

3

L1b

África

0

2

1

2

1

L1c

África

4

4

8

2

5

L2

África

2

10

8

0

6

L3d

África

0

4

0

4

2

L3e

África

7

14

11

0

8

L3*

África

0

2

2

0

1

Total

África

15

44

34

12

28

U6

Af. Do Norte e Mediter.

2

0

2

2

2

H

Europa

8

22

1

24

17

Pre-V

Europa

2

2

5

4

3

HV*

Europa

0

0

0

2

0,4

U

Europa

4

6

5

8

6

pre*HV

Europa

0

0

0

2

0,4

J

Europa

6

2

1

12

4

T

Europa

7

2

4

8

5

I

Europa

2

0

0

0

0,4

X

Europa e Ameríndios

0

0

2

4

1

Total

Europa

31

34

33

64

39

A

Ameríndios e Asiáticos

8

8

13

8

10

B

Ameríndios e Asiáticos

17

6

11

6

10

C

Ameríndios e Asiáticos

21

2

6

6

8

D

Ameríndios e Asiáticos

8

6

4

4

5

Total

Ameríndios

54

22

33

24

33

Fonte: Ciência Hoje, abril de 2000, p. 22

A distribuição dos haplogrupos mitocondriais por região no Brasil também está relacionada à história da colonização, dizem os pesquisadores. No Sul, chama a atenção a maioria (66%) dos haplótipos europeus, refletindo a imigração européia dos séculos 19 e 20, de um lado, e a minoria das matrilinhagens africanas associada à menor utilização de mão-de-obra escrava na região.

No Norte, 54% das matrilinhagens são ameríndias e refletem a maior presença indígena em relação aos africanos entre os trabalhadores forçados da região. No Nordeste, predominam matrilinhagens africanas (44%), e mesmo no Sudeste, onde concentrou-se a imigração européia, e que portanto é visto como o Brasil branco, há uniformidade da distribuição das linhagens.

Os dados do estudo dos cientistas da UFMG reafirmam a inexistência de raças humanas e expõem a diversidade genética da população brasileira. Somos descendentes de africanos, índios e europeus. E, olhando mais de perto, veremos que os europeus nos deixaram as marcas das invasões e imigrações daquele continente por celtas, fenícios, romanos, suevos, visigodos, judeus, árabes e bérberes. A nossa ascendência será cada vez mais rica à medida em que os estudos filogeográficos se desenvolverem e conseguirem determinar mais detalhadamente a origem histórica dos marcadores genéticos.

A natureza tri-híbrida da população brasileira, a partir de ameríndios, africanos e europeus, já havia sido afirmada por vários autores como Artur Ramos, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro, entre tantos outros. Como dizem os pesquisadores mineiros, "os dados que obtivemos dão respaldo científico a essa noção".

A partir da presença de 33% de matrilinhagens ameríndias, eles calculam que cerca de 45 milhões de brasileiros tem DNA mitocondrial ameríndio ÿ descendem, portanto, dos primeiros habitantes desta terra. "Em outras palavras", dizem eles, "embora desde 1500 o número de nativos no Brasil tenha se reduzido a 10% do original (cerca de 3,5 milhões para 325 mil), o número de pessoas com DNA mitocondrial aumentou mais de 10 vezes". É uma herança expressiva e muito maior do que a suposta, e que relativiza a idéia de que quase a totalidade da população originária teria sido simplesmente eliminada, como geralmente se diz. Ela nos leva a entender melhor a participação, muito subestimada, dos indígenas na formação do povo brasileiro. Os colonizadores de fato massacraram o povo autóctene da terra que invadiam, mas uma fração relevante deste povo foi assimilada e incorporada ao novo povo que surgia, o povo brasileiro.

Que branco é esse?

Outra revelação importante é que "a contribuição européia deu-se basicamente através de homens, e a ameríndia e africana veio principalmente através de mulheres. A presença de 60% de matrilinhagens ameríndias e africanas em brasileiros brancos é inesperadamente alta e, por isso, tem grande relevância social", dizem os pesquisadores. Estes dados já haviam sido vislumbrados por antropólogos brasileiros que explicaram a formação do povo brasileiro.

Darcy Ribeiro foi um deles. Em O Povo Brasileiro ele dá as pistas de nossa história genética. Desde o começo da colonização, vieram da Europa principalmente homens, e raríssimas mulheres. E os colonos, desde o início, acasalavam-se com as índias, formando alguns focos de mamelucos, resultado da miscigenação entre índios e portugueses, franceses ou espanhóis. No final do século 16, o padre José de Anchieta avaliava a população do Brasil em 57 mil almas, sendo 25 mil brancos da terra (principalmente mestiços de portugueses com índias), 18 mil índios e 14 mil negros. "Anchieta, porém só se referia à população incorporada ao empreendimento colonial que ocuparia, naquela época, não mais de 15 mil quilômetros quadrados", diz Darcy Ribeiro. Quase a metade da população era branca, mas branca da terra, isto é, mamelucos. E, no conjunto da população, o número de brancos europeus era ínfimo.

A partir daí o componente negro-africano aumentou cada vez mais, pela intensificação do tráfico africano e do uso de escravos na colônia, trazendo muito mais homens do que mulheres -ÿ de tal forma que, em alguns locais, a população negra era constituída quase que exclusivamente por homens.

Surgimos, efetivamente, do cruzamento de uns poucos brancos com multidões de mulheres índias e negras

"Numa sociedade com carência principalmente de mulheres, os índios e negros aliciados como escravos raramente conseguem uma companheira", inutilizando-se como povoadores. Os descendentes mestiços do cruzamento entre europeus, índias e negras foram aqueles que formaram o nosso povo e constituíram a identidade brasileira até praticamente 1850. Dados citados por Darcy Ribeiro mostram que de 1500 até 1850 vieram para o Brasil apenas 500 mil europeus. Um número ínfimo se considerarmos que até esta data foram introduzidos, como escravos, entre 4 a 6 milhões de negros, e que a população indígena original teria sido de 5 milhões. E ele conclui, antecipando-se aos resultados da pesquisa genética realizada em Minas Gerais: "Nós surgimos, efetivamente, do cruzamento de uns poucos brancos com multidões de mulheres índias e negras".

A partir de 1850 há, no entanto, uma alteração na composição das linhagens maternas na população com o início da vinda de grandes contigentes europeus, acelerada no final do século XIX e que trouxe, até 1960, cerca de 4 milhões de pessoas, vindos de diferentes países da Europa. Pode-se dizer que esses imigrantes foram a principal fonte daquela terça parte de matrilinhagens européias que os pesquisadores da UFMG encontraram. Diferentemente dos portugueses dos tempos coloniais, que raramente trouxeram suas mulheres, os imigrantes modernos vieram com elas, e seus filhos e filhas formando, pela primeira vez, um extenso estoque de mulheres européias no conjunto da população brasileira. A elite racista do começo do século havia sonhado promover, com a imigração européia, o branqueamento da população. Mas os imigrantes não formaram quistos étnicos isolados, incorporando-se à população já existente através dos casamentos. Frustraram assim aquela esperança racista. Ao contrário dela, como os cientistas da UFMG mostraram, a mistura dos imigrantes à população brasileira aumentou enormemente o número dos mestiços, muitos dos quais à primeira vista brancos, que caracterizam nossa população.