A I Invasão Holandesa, a tropa se rende... a gente da terra reaje!

Era a Holanda a potência mais forte da Europa, e atacava uma colônia praticamente abandonada. Portugal e Castela perderam por toda parte onde quer que a forte Holanda os atacou, como poderia o Brasil subsistir?... A Espanha julgava insuperável a dificuldade de defender o Brasil, e só esperava remédio da ação dos próprios brasileiros. E eles se libertaram... reagiram lutando implacavelmente para continuar a serem brasileiros. Uma explícita manifestação nacional, de uma pátria irredutível, no ânimo de um povo invencível, “O Brasil teve que dever sua a restauração aos indomáveis brios do seu povo”.  É a conclusão do historiador inglês Robert Southey.

A maior guerra da América, até os fins do séc. XVII, sustentada por mais de 10 anos, em combates dos mais mortíferos da história, contra a nação mais poderosa, na época. Volvem-se as páginas dessa guerra, e os heroísmos ressurgem a qualquer mais leve movimento, com a prova de tudo: o surgir de uma nacionalidade, a primeira da América, tão real e definitiva, que não pode ser dominada, nem absorvida.

Então em 1624, vem a Holanda sequiosa de saque atacar a opulenta Bahia, com 21 navios, de 300 e 700 toneladas, e um séqüito de vasos menores, com cerca de 300 canhões e mais 3.000 soldados. Para a época, isto representava muitíssimo.

Em 1624, já era patente a degradação de Portugal, sobretudo de seus dirigentes, apesar de prevenidos, a cidade foi tomada. Recolhidos riquíssimos despojos... As tropas portuguesas,  postados para repelir o desembarque do inimigo; tomam-se de medo, fogem sem disparar o tiro que trazem no arcabuz. E o holandês, que desembarcou sem nenhum embaraço, entra pela cidade, como se fora sua vivenda de família. Incapacidade, incúria, frouxidão...  É o natural na decadência por degeneração.

O Estado português se rende, o holandês se estabelece; mas a população repele imediatamente o domínio estrangeiro. A vereança da cidade da Bahia, gente da terra, agrupa-se em torno do bispo, substituto legal do inepto governador aprisionado; decide-se a resistência ativa, e começa a reação. Avisa-se Pernambuco, que virá com a sua gente, afeita a defender o Brasil. Acodem, da Bahia, os senhores que estão nas suas terras, e nomeia-se o primeiro comandante da reconquista o brasileiro Lourenço Cavalcanti de Albuquerque. Daí por diante, a luta será feita pela população, insurgida contra o invasor. A primeira reação armada foi da parte de “4 índios dos padres... que não tinham tanta paciência...” comenta Frei Vicente. Não tarda que acuda Afonso Rodrigues, da Cachoeira, com os seus índios; Melchior Brandão, de Paraguaçu, vem ser o segundo comandante e traz a sua gente; Lourenço de Brito acha na população da terra um corpo de voluntários... Desenvolvia-se a guerra,com grave espanto dos holandeses que, se não compreendiam “como os portugueses entregavam as cidades sem lutar”, menos compreendiam que uma população de simples coloniais se levanta-se, e pretende-se resistir a poderosa expedição que dominara a cidade capital.

Por esse tempo, estão chegando os de Pernambuco – D. Francisco de Moura, Souza Dessa... e reforços que Matias de Albuquerque envia para maltratar o holandês. As simples guerrilhas dos primeiros tempos tinham feito perder a vida o Coronel holandês Vandort, agora, em combates de verdadeira guerra, morre o seu sucessor Alberto Scuttis. Do sul, não menos brasileiro e intransigente nos seus brios contra o estrangeiro, vem com o fluminense Salvador Correia de Sá e Benevides; a força quase toda de brasileiros, mamelucos e índios mansos, começa a luta pelo Espírito Santo, donde desaloja o holandês, e prossegue até a Bahia onde, de par com as tropas de D. Fradique, participa da vitória final. É enviada uma poderosa esquadra Luso-Espanhola composta por 52 navios. Para agir com a grande esquadra, os 3 irmãos Cavalcanti de Albuquerque armam, à sua custa em Pernambuco, uma flotilha, guarnecem-na com parentes e amigos – 130 valentes, e vêm pra Bahia. De caminho encontram-se com um navio holandês, morrem 5 dos pernambucanos, mas conseguem chegar a tempo para entrar no combate. O Rei lhes reconhece o serviço, e agradece por carta. 

O esforço essencial estava feito, na formidável reação da gente da terra; o batavo sentia-se fatigado, e reconhecia que ainda não seria, daquela, a vez de tomar pé no Brasil. A vitória já estava assegurada no valor teimoso dos que, desde o começo, atenazaram os holandeses. Mesmo no concurso final, foi decisivo o concurso dos pernambucanos, baianos, fluminenses e paulistas – os verdadeiros combatentes na guerra que, ali, devia ser feita. Diz o historiador holandês Netscher meditando sobre o assunto: “Parece incrível que em 1624, tão prontamente se submetessem a nós esses mesmos portugueses que nos combateram com tanta coragem...” É eloqüente o comentário de Netscher, mas incompleto na explicação; quem se submeteu ao holandês não foi propriamente a nação portuguesa mas, seus degradados dirigentes, e quem reagiu e tão vigorosamente bateu o invasor não foi o Estado Português mas, os brasileiros.