Alijados da Bahia, o holandês sequioso de saque e de vingança, nem teve o cuidado de ocultar os seus intuitos: toda a Europa sabia que se preparava nos portos batavos, uma esquadra poderosa para atacar Pernambuco. E nada se fez. Southey não se contém: “Jamais houve colônia tão cruelmente descuidada pelo seu governo”.
Em 15 de fevereiro de 1630, os holandeses, após se apresentarem no litoral pernambucano com poderosa esquadra, composta de 7.000 homens e 50 navios, desembarcaram na Praia de Pau Amarelo.
A frente de apenas 150 homens, Matias Albuquerque intentou resistir, mas, guiados os holandeses pelo judeu-português Antônio Dias, eram trazidos por outros caminhos e facilmente se apossavam dos baluartes de defesa, até a queda do forte de São Jorge. Finalmente, sem esperanças de salvação, incendeiam-se 3.500 caixas de açúcar, 3.000 pipas de vinho, entregando Recife ao inimigo.
Mas não está acabado o sucesso: a terra brasileira estremeceu e, de toda parte, acodem patriotas – contigente de voluntários, com que Matias de Albuquerque pôde organizar um começo de resistência sério, com o acampamento fortificado do Bom Jesus, que será a escola de resistência, o fecundo tirocínio de combates que ensinaram os pernambucanos a enfrentar o holandês, a vencê-lo a desprezá-lo. E assim, amarrarem o holandês às praias, donde nunca soube apartar-se por mais de 8 léguas.

Nos 2 primeiros anos os holandeses não lograram nenhuma vantagem definitiva: “Nada conseguimos tirar desses pernambucanos; não há aparência, segundo juízo humano que tão cedo consigamos comércio e trato com eles”. São os termos em que um flamengo do Recife expõe a situação dos seus. Tão fatigados e desanimados estavam eles, pelos repetidos revezes das guerrilhas, que pensaram em desistir da empresa. As ações da Companhia das Índias Ocidentais baixaram 40% do valor. Olinda, a mais rica e desenvolvida cidade das Américas é incendiada, e os pernambucanos com lágrimas nos olhos viram sua majestosa capital ser consumida pelas chamas.
Tudo ia de mal a pior para os holandeses, até que em 1632 Calabar passa pro lado holandês e passa a guiá-los contra os brasileiros, assim, os holandeses apoderam-se de Igaraçu e do Forte do Rio Doce. E em 08 de abril de 1635, após 5 anos de resistência, cai o Arraial do Bom Jesus após 3 meses de sítio.
Com a queda do Arraial , Matias de Albuquerque empreendeu penosa marcha rumo a Alagoas, acossados pelo inimigo, atormentados pela hostilidade de tribos implacáveis, escoltando 7.000 pessoas que não quiseram viver sob jugo holandês, 200 carros de bois, protegidos por 300 soldados, restos da longa e dolorosa campanha, com um rastro de cadáveres, desolação, misérias, agonias...
O historiador inglês Robert Southey, ao lembrar os transes da emigração relata: “Para honra dos brasileiros, todos aqueles, dentre eles, que mais terras possuíam em Pernambuco, as abandonaram agora, preferindo o desterro ao jugo do estrangeiro. Queixavam-se da metrópole que os esquecia, não da própria desgraça; suportavam-na como homens dignos de a melhorarem”. Somente reinóis (muitos, judeus-portugueses) ficaram para dar população ao holandês, e enriquecerem nos escambos que arrematavam.
Na retirada, reconquistam Porto Calvo guarnecido por 500 holandeses, onde prenderam Calabar, que, condenado por sua traição, foi enforcado.
A coluna de Matias de Albuquerque reuniu-se à tropa do Conde Bagnuoli em Alagoas. Em 18 de janeiro de 1636 teve lugar a Batalha de Mata Redonda comandada pelo castelhano D.Rojas y Borja, ali morto em combate e que substituira Matias de Albuquerque chamado à Europa. Sem liderança, as tropas portuguesas enviadas por Bagnuoli retiraram-se. Não se completou o desastre tático, graças aos brasileiros, Rebelinho e Felipe Camarão. Estes, na cobertura da retirada, praticaram prodígios de audácia e valor, criando condições para que os destroços do exército fossem acolhidos em Porto Calvo.
Porto Calvo passou a ser o novo baluarte da resistência, de onde organizavam e partiam as célebres companhias de emboscadas, destruindo canaviais, tomando recursos, punindo colaboracionistas, e mantendo viva nas populações subjugadas pelo invasor a esperança de liberdade. O inimigo perdeu a possibilidade de locomover-se na conquista. Em todo canto e hora e lugar, a morte rondava-lhe os passos, sob a forma de flecha, espada ou bala. Num desses lances é que Henrique Dias repete a façanha de Martim Soares Moreno, e vem ameaçar o inimigo às portas do Recife, isto depois de o ter batido e dizimado, de par com Rabelinho, em Ipojuca, Serinhaém, Goiânia, até a Paraíba, donde pôde voltar sem que o contivessem. “Diante das suas tropas, assinala Southey, apavoradas, amotinadas, a guarnições holandesas entregavam-se...”
Em 1637, chega a Pernambuco Maurício de Nassau para governar os domínios de Holanda no Brasil. E em 1638 intenta pela segunda vez se apoderar da Bahia, quando é derrotado por Luiz Barbalho.
Em 1640, Portugal liberta-se de Espanha. E é pela mão do inimigo de sempre, o desleal, pirata e cruel holandês, que Portugal se restaura, cedendo-lhe tudo, mais que a honra: a vida do filho... D. João IV concertara uma trégua de 10 anos com a Holanda (1640-1650), ficando esta com a posse de seus domínios, não podendo, no entanto, ampliá-los.