A Libertação da Bahia

A luta na Bahia atingiu aspectos empolgantes no sentido da formação de um espírito nacionalista, surgindo então o símbolo do caboclo, vencedor do invasor europeu.

Salvador presenciou, após a tomada do Forte de São Pedro, cenas de barbárie da tropa de Madeira de Melo. Perseguindo patriotas brasileiros que se refugiaram no Convento da Lapa, arrombaram portas, arrasaram altares, e assassinaram, cruelmente, a bondosa Madre Joana Angélica, ao proteger com seus protestos a vida e a honra das freiras. com isto extremando o anseio de libertação da Bahia. Grande número de brasileiros, abandonaram Salvador em busca do Recôncavo para a formação de um núcleo de resistência.

Na vila da Cachoeira, criou-se, 25 junho 1822, uma Junta Conciliadora da Defesa, interina, para dirigir a reação nacionalista. O movimento estendeu-se a outras vilas. A Junta convocou todos os que pudessem concorrer. Instituiu uma Caixa Militar para reunir os meios necessários. Nas vilas revoltadas foram mobilizados milicianos e voluntários. Na falta de armas e munições fundiram-se peças de bronze, ferro e chumbo dos engenhos para fabricar-se material bélico.

Os patriotas dominaram todo o Recôncavo Baiano, controlando inclusive a ilha de Itaparica. Segundo o historiador Eurípides Simões de Paula, "durante a guerra da Independência na Bahia, surgiram tropas irregulares recrutadas no interior baiano: os jagunços e os couraças, vestidos de couro como os sertanejos. Essas tropas combateram muito bem contra os portugueses do General Madeira e chamaram a atenção não só pelo traje exótico como também pela prática da guerrilha".

Teve inicio a guerra de guerrilhas, sem tréguas, contra Madeira de Melo. Dela participavam, entusiasmados, crianças, padres, mulheres e até índios, utilizando arco e flecha.

Surgiram para lutar as companhias de Bellona e de Mavorte, a de Voluntários Cavaleiros, a dos Pedrões ou Encourados, a de Sertanejos do Rio das Contas,(comandada por frei José Maria Brayner) , a dos Pretos Libertos, a dos Voluntários do Príncipe também chamados Periquitos, a dos Índios, (chefiados por Bartolomeu Jacaré) e tantos outros grupos heróicos que, embora não dispondo de armamento comparável ao dos portugueses, sobrava a superioridade em bravura , patriotismo e disposição para a guerra de guerrilhas. Estratégia que no passado havia contribuído para a expulsão dos holandeses de Salvador, em 1625 ,e o surgimento da Guerra Brasílica que foi sublimada em Pernambuco.

Esses audazes guerrilheiros brasileiros abordaram e tomaram a escuna inimiga que bloqueava o porto de Cachoeira; ergueram trincheiras e interditaram as passagens dos rios de Cachoeira e Santo Amaro; inquietaram e hostilizaram as tropas de Madeira de Melo, cortando-lhes as comunicações e prejudicando-lhes o suprimento.

Entre os integrantes dessa notável resistência distinguiu-se a figura feminina Maria Quitéria de Jesus Ela emocionada pela causa da independência, abandonou a casa, vestida de homem ,e assentou praça, num regimento de Artilharia, e transferida depois para o Batalhão dos Periquitos. Em fins de 1822, à frente de um grupo de mulheres, notabilizou-se pela bravura, entusiasmando os soldados, impedindo o desembarque adversário na foz do rio Paraguaçu.

A reação nacional no Recôncavo baiano: Com o Manifesto das vilas confederadas de Cachoeira, São Francisco e Santo Amaro, em junho de 1822, a reação nacionalista alastrou- se pela Bahia .

O Brigadeiro português Madeira de Melo subestimou o movimento dos patriotas, convicto de que as suas tropas, mais bem armadas e adestradas, poderiam bater os patriotas facilmente. Ele considerava incompetentes os comandantes dos milicianos, mobilizados nos engenhos e no sertão e mal armados e municiados. Limitou-se Madeira de Melo ao rigoroso policiamento de Salvador, fechando os seus acessos com postos avançados , reconhecimento permanente no Recôncavo e patrulhamento marítimo. Ele ocupou a ilha de Itaparica, sem resistência em 1º de julho. Mas a abandonou por julgá-la sem valor estratégico. Erro que lhe custaria pesado preço .

Madeira de Mello envolvido com problemas do governo civil descuidou das atividades dos senhores da Torre que, ocupando a Feira do Capuame, barraram o acesso ao sertão, a via de suprimento de Salvador. Instalaram-se em Pirajá, distribuindo destacamentos pelas ilhotas e praias do Recôncavo como postos avançados da defesa.

D. Pedro I, sentiu a necessidade de organização e enquadramento militar dos patriotas baianos Ele ordenou ao seu Ministro da Fazenda, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, contrair, com particulares, o empréstimo de 400 contos de réis, e preparou no Rio de Janeiro uma força expedicionária, ao comando do General francês Pedro Labatut, veterano das campanhas de Napoleão.

Labatut seguiu para o norte, numa esquadrilha, ao comando do chefe de Divisão, Rodrigo Antônio de Lamare. Desembarcou em Alagoas, de onde marchou para Recife, a fim de mobilizar reforços. A 4 setembro 1822, regressou a Alagoas transportando, através do São Francisco, 200 homens, para, de surpresa, atacar o Brigadeiro Pedro Vieira ,em Sergipe. A resistência portuguesa foi vencida e Labatut marchou triunfante , de Laranjeiras a São Cristóvão, futura capital sergipana.

Depois de 5 dias da sua chegada, o seu Exército estava reorganizado em brigadas. Criou um Arsenal de Guerra, em Feira do Capuame. Confiou a direção ao Capitão da Torre, João Sepulveda de Vasconcelos.

Em 4 novembro 1822 ,esta reequipada toda a guarnição dos postos ribeirinhos. Em Cabrito foi criada uma oficina de guerra. A maquinaria do engenho e a fábrica de artefatos de cobre transformaram-se em usina. Antônio Marques, filho do proprietário, se incumbiu de fundir as peças de artilharia e revisar e manutenir as armas e munições, apreendidas dos portugueses.

As linhas brasileiras estenderam um cerco efetivo de Salvador. O Brigadeiro português Madeira de Melo reconheceu estar cercado ou sob sitio. Tentou rompê-lo, mas foi sempre repelido. E agora ,sem sucesso, quis apossar-se da ilha de Itaparica. E Intensificaram-se os encontros entre elementos portugueses e brasileiros .

A batalha de Pirajá: Pirajá constituía para a força brasileira ponto chave da defesa, por sua posição dominante. Por ela passava a tradicional estrada das Boiadas, ligando Salvador com o norte da Bahia . A posse de Pirajá representava, para os patriotas , o domínio da enseada de Itapagipe e, o corte da entrada de víveres e de gado para o abastecimento de Salvador .

Ciente da relevância de Pirajá, Madeira de Melo procurou controlá-lo. O seu plano de ação para 8 novembro e 1822, consistia:

Atacar o Exército Patriota em sua base de operações, Pirajá, dividindo-o em duas partes .Destruir uma parte e obrigar o restante a retirar-se na direção do norte. E, dessa forma ,esperava romper o cerco de Salvador e ter acesso ao sertão.

Ao amanhecer de 8, a Infantaria portuguesa desembarcou em Itacaranha e Plataforma. Ao mesmo tempo outras tropas atacaram Cabrito, ameaçando a retaguarda brasileira. Para lá acorreram reforços dos patriotas.

Nas encostas de Pirajá, a luta assumiu grandes proporções. Segundo o barão do Rio Branco, "o comandante da posição, Tenente - Coronel José de Barros Falcão, que trouxera ajuda de Pernambuco, possuía cerca de 1.300 homens, assim distribuídos: Batalhão de Pernambuco; Batalhão de Milicianos do Rio de Janeiro; Legião de Caçadores da Bahia; Corpo Henrique Dias; Uma companhia do 1º Regimento de Infantaria da Bahia e uma bateria de Artilharia do Rio de reforço .

O efetivo de Madeira de Mello englobava os 1º e 2º batalhões da Legião Constitucional, os 4º e 10º regimentos de Infantaria, e um contingente de Artilharia, contando ao todo 4.000 mil homens.

Combateram 5 horas, sem um resultado decisivo. Depois, um violento ataque os portugueses quase romperam a linha brasileira, ameaçada de ser dividida em duas partes. Se dirigiram as 4 colunas lusitanas com seus quatro mil efetivos contra um corpo de 300 brasileiros. Quando foi dada a ordem de retirada ao corneteiro Luís Lopes para evitar o envolvimento.  Luis Lopes não se moveu, o general repetiu a ordem por mais duas vezes, o corneteiro se manteve imóvel. Furioso, o coronel colocou sua espada nas costas do corneteiro ameaçando matá-lo caso não obedeces-se. Luis Lopes coloca a corneta na boca e toca “cavalaria, avançar e degolar”, toque que apavorava qualquer infante, pois significa que a cavalaria não devia deixar ninguém vivo. Os portugueses debandaram desordenadamente. Um pequeno detalhe, as forças brasileiras não tinham cavalaria. Coube aos comandados pelo pernambucano José de Barros Falcão de Lacerda fazer o serviço e  colocar os “portugueses” para correr. Os brasileiros, animados, avançavam, perseguindo-os a ponta de baionetas, levando-os de roldão até a praia onde embarcaram em desordem.

Em Cabrito, o mesmo ocorreu, a fuga do inimigo. Assim derrotaram-se os soldados do arrogante Brigadeiro Madeira de Melo Eles tiveram baixas avaliadas em 200 homens, entre mortos e feridos. Baixas expressivas em relação ao efetivo total.

Na batalha de Pirajá, o nascente Exército Brasileiro conseguira firmar o seu valor, elevando o seu moral, ao derrotar forças experimentadas e mais bem equipadas.

Os portugueses renunciaram definitivamente à conquista das posições de Pirajá, Conformando-se em manter Salvador em seu poder, reconhecendo o poder e o prestígio do governo de Cachoeira. Os seus suprimentos se limitavam ao recebidos por mar, do apoio da esquadra inimiga.

Labatut passou à ofensiva, em 29 dezembro 1822 , liderando , em pessoa, as forças de Pirajá e Itapoã. Tentou desalojar os portugueses, fortemente entrincheirados, sem conseguir dominar a defesa. O seu ataque evidenciou o espírito agressivo dos brasileiros.

O combate de Itaparica de 7 janeiro 1823 :Os lusos voltaram-se uma vez mais contra a ilha de Itaparica ,em 7 janeiro 1823. Empregaram uma força de 2 brigues e várias canhoneiras e outra de 41 lanchas e lanchões. Era impositivo aliviar o bloqueio de Salvador, cuja maior parte do povo era hostil aos portugueses e padeciam as aperturas da fome.

Por volta das 7 horas da manhã, os portugueses, em 2 embarcações, reconheceram o Forte de São Lourenço. Às 9,30 horas tentaram o desembarque com o grosso da flotilha. Uma divisão atacou as trincheiras das Amoreiras, de São Pedro e o Forte de São Lourenço ; 2 canhoneiras da flotilha brasileira, e as trincheiras entre aquele e Mocambo. Os itaparicanos defenderam-se, valorosamente, e tomaram de assalto uma embarcação inimiga. Às 18,00 horas cessou a luta, com a retirada dos atacantes. Os combates da Conceição e de Itapoã, em fevereiro e maio de 1823, não trouxeram qualquer alteração nas posições de ambas as defesas.

Embora os portugueses recebessem, nessa época, reforço de 2.500 homens, consideraram-se impotentes para uma ação definitiva contra o Exército patriota . Esse reforço agravou a escassez de víveres das tropas sitiadas. Desentendiam-se Madeira de Melo e o comandante da Esquadra, Pereira de Campos. O ambiente, na Bahia, para os portugueses era cada vez mais difícil E foi agravado em 1º maio 1823, quando surgiram, frente à barra da Baia de Todos os Santos ,velas da Esquadra brasileira composta de 8 navios e comandadas pelo o Almirante inglês, Lord Cochrane contratado por D. Pedro I. Já a esquadra portuguesa possuía 13 navios: 1 nau, 5 fragatas, 5 corvetas e 2 brigues.

O primeiro combate naval deu-se a 4 maio 1823, nas costas da Bahia, sem engajamento geral. Cochrane fez a sua base no morro de São Paulo. Certo dia de junho ,tirando proveito de uma noite escura, entrou no porto de Salvador em reconhecimento. Destacou 2 navios, para o bloqueio e a interceptação dos suprimentos destinados à Madeira de Melo. Com isso, completava-se o cerco total patriota de Salvador .

Houve divergências entre os comandantes brasileiros . Foi preso e destituído, o General Labatut, em 22 maio 1823, e retirou-se para o Rio de Janeiro. A Junta de Cachoeira nomeou, comandante, o Coronel José Joaquim de Lima e Silva que em 3 junho 1823 desencadeou novo ataque contra a defesa inimiga em Salvador , sem resultado significativo.

A situação das forças portuguesas, a cada dia era mais precária. Eram hostilizados constantemente pelos baianos e sujeitos a privações e aborrecimentos. Nesta altura Madeira de Melo começou a desanimar. Enquanto de seu lado tudo rareava , crescia o entusiasmo e o vigor combativo do Exército patriota ,já numerando de 11.000 homens, provenientes da Bahia e de várias províncias. De Minas viera, pelo sertão, o Regimento de Infantaria Auxiliar de Vila Nova da Rainha (Caeté),e só regressando a Minas em 1829.

Os navios de Cochrane tornavam duvidoso o recebimento dos reforços mandados de Lisboa. Ao findar junho de 1823 , os portugueses, em Conselho Militar, decidiram pela Retirada, usando todos os barcos disponíveis. Concluíram-na, precipitadamente. E em 2 de julho de 1823, O Exército Libertador da Baia, entrou triunfalmente em Salvador.

Lord Cochrane ordenou a perseguição dos navios inimigos. O Capitão John Taylor, comandante da fragata Niterói, capturou várias embarcações lusas, chegando à barra de Lisboa, foz do Tejo.