A Luta contra os Ingleses

 

A luta sustentada no Amazonas foi, principalmente contra ingleses e holandeses. É verdade que nos fastos da defesa tem­tonal do Brasil, o nome do inglês aparece menos, como que esporadicamen-te em episódios rápidos. Não haja ilusão a esse respeito: depois da tutela da Inglaterra sobre o miserável Portugal dos Braganças, o Brasil — colônia portuguesa — não foi ostensivamente atacado; antes, porém, esse domínio foi viva-mente cobiçado pela pirataria inglesa, até que o britânico, práti­co, reconheceu mais vantagem e mais possibilidades em aplicar os seus esforços sobre os territórios de Castela. Melhor se com­preenderá o desenvolvimento dos ataques ingleses sobre o Brasil, tendo-se em vista os três períodos em que se apresenta a situação exterior de Portugal: conquistador soberano até que é enfeudado na coroa de Castela, em 1580; dessa data à Restauração — governo dos Filipes; o Portugal restaurado, alia­do subalterno da Inglaterra. No primeiro período, o inglês ainda não é um povo ultramarino, capaz de afrontar Portugal. As faça­nhas marítimas de que resultam a riqueza e o império da Inglaterra, começam com Drake, e exercem-se furiosamente contra a Espanha, inclusive os domínios portugueses; mas, como essas primeiras operações são quase que exclusivamente de pira­taria, o Brasil é menos procurado: a fúria dos corsários ingleses vai sobre os galeões do Pern e a Índia famosa. No terceiro período, a Inglaterra explora Portugal num modo mais eficaz do que se desse à pena de fazer conquistas ostensivas. Esses motivos gerais devem completar-se, no entanto, coni a essencial resistên­cia do Brasil, e a sua capacidade de defesa.

Ainda que fracos, em poucos aventureiros esparsos, desde cedo o inglês avança sobre o Brasil. Começa ao mesmo tempo que a colonização regular dos portugueses. E cita-se um Hawkins, que tem frota especialmente para o tráfico do Brasil, na Bahia, em 1530. Nos tempos seguintes, o comércio se regulariza, poi intermédio de armadores de Southampton, até que, em 1542, um certo Pundney levanta um forte, bem em face do sítio do Caramuru. Mas não passou adiante, e não tarda que a Bahia de Tomé de Souza seja uma potência diante da qual se calam as pretensões dos ingleses raros que andam por aqui. Todavia, antes mesmo do desastre de Alcácer-Quibir, em 1 567-72 outros ingle­ses tentam uma colonização definitiva no vale do Paraíba (do Sul), estimulados, talvez, pelas aventuras dos franceses, e com a aquiescênCia~ certamente, dos tamoios dali. “Também os ingleses tratavam por esses tempos de estabelecerem-se no Brasil (1572)... Fixaram-Se em grande número no Paraíba do Sul. Aí se ligaram às mulheres do país, e com mais uma geração pod~riam, os anglo-tupis mestiços vir a ser perigosos vizinhos, se o gover­nador não os tivesse, no quinto ano de residência, atacado e ex­terminado”.6 Para prevenir outros efeitos de ingleses, Martim de Sá aconselhou, então, a fundação de duas aldeias no rio Macaé e na baía Formosa. “Esses estrangeiros contavam com o apoio de mamelucos e de cristãos novos para estabelecerem-Se no Rio de Janeiro e no Espírito Santo”J Esta informação de Capistrano de Abreu se liga, talvez, àquele plano, desvendado por Gondova~ e a que se refere Southey. Sobrevém a anexação de Portugal àcoroa dos Filipes, e os ingleses, mais senhores no mar, têm desas­sombro nos seus planos... Fala-se, então, de um inglês residente em Santos, John Withall, que provocou1 em 1576, a vinda de um navio inglês, o Menion, e que, na qualidade de amigo, foi muito bem recebido naquele porto. Com isto, persiste a memória dos primeiros projetos, de sorte que, em 1582, bate Fenton sobre Santos, com a sua frota. Frei Vicente, que conta o caso circuns­tanciadamente, afirma que estes vinham com o intuito “de se for­tificarem, em S. Vicente, e fundar colônia...”. Vieram em três galeões1 falando em nome do Prior do Crato. Os colonos desde logo os repeliram, sem forças, no para uma operação naval imediata. Chegaram navios espanhóis e os ingleses safaram-se. Pouco depois — três anos é a proeza de Withringtofl, sobre a Bahia, em puros feitos de pirata. Esses ingleses1 imediata­mente hostilizados pelos índios das aldeias dos padres, bombar­dearam a cidade, mas não ousaram dar desembarque, aí; dirigi­ram-se para os engenhos do Recôncavo, onde foram sempre mal tratados, até que, no ataque à Itapanica, o Caapara8 e outros da terra os repeliram. Foram ainda a Camaxnu, para maior façanha do Caapara, que matou oito deles, trazendo ao governador as respectivas cabeças. E contra esses invasores que aparece aquela heroína de ltapoã, “a cavalo, com lança e adarga”. Withringtor operara de parceria com Lister.

Segue-se (1591) Cavendish. um Drake sem resquícios d humanidade e de nobreza. Age secundado pelo vice-almirante Cook: desembarca em Santos, onde passa dois meses, e não faz mais que pilhar, incendiar e matar bestialmente. Não há lances de heroísmo além do próprio saque. Num segundo ataque, Cavendish faz desembarcar, em Santos. 25 homens, que são batidos e apri­sionados pelos santistas. O pirata intenta incendiar a povoação; mas desiste e, em companhia de Cook, vai sobre o Espírito Santo:

a força de desembarque — duas bateladas — é desbaratada, morrendo-lhe o capitão Morgan. Roído de despeitos e pesares, diz Southey, o almirante perece em viagem para a Inglaterra. Quatro anos depois, Lencaster foi mais feliz no Recife. A degradação patente, na administração colonial, não permite uma resistência eficaz, apesar de que a gente da terra dá o seu valor para a defesa:

houve quem tentasse incendiar os navios do corsário feliz. Demais, para agravar o caso, o opulento Pernambuco de então foi como que um rendez-vous de piratas; reunidos os três bandos navais — ingleses, franceses e holandeses —, a população não poderia investir eficazmente contra eles; saquearam, fartaram-se todos, e foram-se, na evidência de que o domínio definitivo era bem mais difícil. A história seguinte deu a prova disto.

O fato de que os ataques ingleses eram sempre por conta de corsários, não lhes tira a significação, quando sabemos que o grande Império Britânico se gerou nas façanhas de grandes pira-las. O mérito intrínseco, e real. da nação inglesa está em tirar. daí, uma grande construção política com imarcescíveis efeitos nacionais, purificando, de certo modo, a obra de pirataria. A importância desses tais ataques é demonstrada pelas palavras de Southey: “Sem o zelo perseverante dos missionários, a rara população européia (no Brasil) do começo do século XVII não teria podido resistir aos piratas ingleses”. Temos aí a realidade dos ataques: quanto à explicação que ele dá a resistência pelo ielo apo~tol CO... CSSd é O efeito JC um qual excesso dc retração:

~sáe a jnter\eflção. Nóhrega e Anchieta, no caso da Confedcra­dos Tamoios, que o grande historiador é levado a achar

~fluxo de missionários em todas as nossas defesas, inclusive contra os ingleseS. Só depois. na luta contra os holandeses, é que ele soube reconhecer o verdadeiro agente o patriotismo. Foi depois dessa pirataria, nos rastros de Raleigh, que os mugle~es witaram a exploração do Amazonas. Aliás, Southcy mesmo reconhece que Raleigh nada obteve contra o Brasil.

Os ingleses começaram as suas tentativas sobre o Amazo­nas em 1616, na terra dos tucujuS. Estabeleceram-se UflS duzen­tos, garantidos pela aliança dos naturais, e esperavam um reforço de mais 500 aventureirOS, quando Jacome Raimundo os atacou e desbaratou completamente. O comandante inglês era soldado de valor, e grande renome nas guerraS dos Países Baixos. Nesse n~smo tempo, procuravam eles estabelecer-se no Oiapoque. Então, o rei da Ing1aterra~ Jorge 1, já havia dado, a três dos seus servidores, toda a região compreendida entre o Amazonas e o Essequibo; a concessão foi transferida, depois (1617-1627), a uma companhia organizada por North, representante de Lord Buckingham. Quer dizer: a Inglaterra estava seriamente empe­nhada no caso. Pretendem autores ingleses que, em 1622, os por­tugueses foram derrotados, ali, pelos ingleses e holandeses... Vicissitudes de campanha. A verdade é que, em 1623, os holan­deses eram vigorosamente batidos; dois anos depois, caía em poder dos portugueses o forte Filipe, levantado pelos ingleses, e logo depois. a verdadeira fortaleza de Camaú. Do lado britânico, aparecem aí grandes nomes — Roger Fray, Jaime Parcel (irlan­dês), o Conde de Brechier... Quando chega o célebre reforço dos 500 homens, já não havia ingleses que os recebessem, e foram aprisionados (Southey). A melhor atividade do lado dos ingleses é a dos irlandeses Jaime Parcel e Q’Brien. Aquele foi batido e aprisionado por Bento Maciel; voltou à campanha sem maior ventura, e foi dos que influíram para a vinda de O’Briefl que. sem ser militarmente vencido, teve de render-se, para cair sob felonia de Pedro Teixeira e Feliciano Coelho. Do lado do Brasil Os nomes são esses mesmos ja citados, destacando-se Jacome Raimundo. Bento Maciel . Lranc isco Coelho. Sou,a Chichovr

Antônio Cavalcanti... Em 1626, Luiz Aranha relata: “... botei uma nau no fundo (inglesa). Com morte de muita gente, em que entraram seis fidalgos ingleses e um deles chamado o capitão parqua (Parker) irmão de um conselheiro do Rei da Inglaterra, que nas partes de Índias havia saqueado a ilha da Trindade e morto ao governador dela..,”. Em seguida, ele exorta o governo “que mande, com muita brevidade, acabar de conquistar os ingleses que naquele grande rio (Amazonas) me ficarão que serão 250 até 300...”. Do comércio de ingleses e holandeses ali, Aranha o indi­ca: “... grandes proveitos que tiram da terra em tabaco urucu e carajuru que são tintas como grã. E algodão, pita e madeiras. E outras coisas de que... carregam doze até quinze navios por ano”. Em 1632, com a perda desastrosa do forte de Camaú, desistiram os ingleses de ter domínio no Amazonas brasileiro. Comandava a fortaleza o grande R. Fray. A posição foi tomada de assalto;.o

capitão não estava, e quando se recolheu ao seu posto, o navio é rendido de abordagem por Souza Chichorro. Houve motivo para a desisténcia.